sábado, 10 de agosto de 2013

ROTA DA INDEPENDÊNCIA. UM ROTEIRO QUE ALIA CONHECIMENTO SOBRE A HISTÓRIA DA BAHIA À CULTURA PECULIAR DO RECÔNCAVO BAIANO (ETAPA 3: SÃO FÉLIX)

Repleta de cenários, personagens e emoções, a Rota da Independência é um prato cheio para quem quer conhecer a Bahia através da história das lutas pela libertação contra os portugueses. Entre as cidades do Recôncavo que foram parte fundamental da história, Santo Amaro, Cachoeira, São Félix e Muritiba mostram como se desenvolveram e conservaram o patrimônio histórico e suas belezas naturais quase duzentos anos depois.

Durante as lutas pela Independência da Bahia, em 1822, São Félix teve fundamental importância nas batalhas contra a canhoneira portuguesa. Da margem do rio, os manifestantes partiam em canoas para atacar os inimigos. Depois de muitas baixas, os sanfelistas conseguiram enfraquecer a esquadra lusitana e levá-la à derrota, junto com o povo de Cachoeira.

Cravada entre o rio e a serra, São Félix teve uma importante função de terminal tropeiro, pois dali partia a Estrada de Minas, que passava pela Chapada Diamantina, até chegar a Minas Gerais e Goiás. Durante os séculos XVIII e XIX, o desenvolvimento comercial fez a cidade crescer em um ritmo acelerado. Às margens do rio Paraguaçu foram instalados depósitos e armazéns de fumo e três grandes fábricas de charuto, que fizeram São Félix ser chamada de Cidade Industrial. A produção de charutos local já foi a maior exportadora da República e foi responsável pela construção da estrada de ferro.

A cidade reúne monumentos e prédios seculares datados dos séculos XVII, XVIII e XIX, que compõem o acervo arquitetônico e histórico. Logo ao atravessar a ponte, o visitante chega à praça Manoel Vitorino, onde fica localizada a Igreja Matriz de Deus Menino. A fachada do templo possui uma grande portada e quatro janelas no coro, todas com vergas recortadas e molduras em argamassa. No acervo, diversas imagens da Sagrada Família de Nossa Senhora do Rosário e Cristo Crucificado.

CHEGADA DA FAMÍLIA REAL DESENCADEOU PROCESSO.

Em 1808, com a chegada da família real ao Brasil, grandes transformações levaram o país ao caminho da Independência. Aos poucos, a instalação da corte lusitana fez o Brasil passar de colônia a Reino Unido a Portugal e Algarves. No fim do séc. XVIII, a Bahia passou por um movimento popular pela emancipação da província, contra a carga de impostos cobrados pela Coroa e o sistema escravista, conhecido como Conjuração Baiana ou Revolta dos Alfaiates (1798) e que culminou na guerra pela Independência da Bahia.

Após a formação da Junta Provisória (1821), tropas da Legião Constitucional lusitana foram enviadas a Salvador, a fim de garantir a ordem. Militares e civis foram para a Câmara de Salvador e convocaram o povo para exigir a deposição da Junta. A Legião Constitucional foi então chamada para ocupar a praça municipal, sob o comando do governador das armas, Inácio Madeira de Melo.

Os conflitos fizeram com que um grande número de famílias baianas abandonasse a capital rumo às vilas do Recôncavo. A partir da eleição de membros para uma nova Junta, a revolta acirrou as manifestações entre portugueses e brasileiros, culminando no ataque português ao Forte de São Pedro e ocupação da capital.

Após os ataques, os representantes das vilas do Recôncavo reuniram-se na Câmara de Cachoeira, em 1822, para montar um governo interino e lutar pela retirada das tropas portuguesas. A manifestação foi atacada por uma canhoneira portuguesa no rio Paraguaçu. A troca de tiros durou até o dia seguinte, com a vitória do povo cachoeirano. Em homenagem a esse dia histórico, desde 2007 a cidade de Cachoeira transforma-se na capital do Estado no dia 25 de junho.

Outras batalhas fizeram os brasileiros ganharem forças na luta da Independência da Bahia, como a batalha de Cabrito, Pirajá e a tentativa de ocupação portuguesa em Itaparica. A esquadra naval de Lord Cochrane cercou os portugueses em Salvador, enquanto em terra exércitos do Recôncavo faziam o bloqueio. Madeira de Melo foi forçado a abandonar a cidade no dia 2 de julho de 1823, quando esta foi ocupada pelas tropas baianas, libertando definitivamente a Bahia do domínio lusitano. O 2 de julho ficou assim marcado com a data da Independência da Bahia, comemorada todos os anos com muita festa, em todo o Estado.

FABRICAÇÃO ARTESANAL DE CHARUTOS DE SÃO FÉLIX ATRAI VISITANTES PARA A CIDADE.

À margem do rio Paraguaçu é possível conhecer a única fábrica de charutos que ainda funciona na cidade. A Fábrica e Centro Cultural Dannemann mantém a fabricação artesanal feita pelas habilidosas charuteiras, que transmitem o delicado ofício de mãe para filha. O trabalho de confecção artesanal dos charutos faz com que a fábrica tenha um padrão reconhecido internacionalmente.

A fábrica funciona com 11 charuteiras que produzem entre 200 a 400 charutos por dia, a depender do tipo fabricado; ao todo, são produzidos nove tipos de charutos. O Centro Cultural Dannemann é um espaço utilizado para exposições, oficinas e cursos. O local é sede do Festival de Filarmônicas e da Bienal do Recôncavo, que este ano será realizada a partir do dia 27 de novembro. Além de conhecer cada passo da produção fumageira, o visitante pode adotar uma árvore, que é plantada através de um projeto de reflorestamento com árvores nativas.

No prédio que abrigava a antiga sede da Dannemann, construído no fim do século XIX, hoje funciona a Casa de Cultura Américo Simas. O espaço abriga cursos de linguas, artesanato e de educação patrimonial, oficinas, e serve como sede da organização de eventos locais, com a Festa da Independência. O nome da casa é uma homenagem ao engenheiro Américo Simas, sanfelista responsável pela construção da barragem de Bananeiras, atual usina hidrelétrica de Pedra do Cavalo.

Outra construção do final do século XIX é o prédio da Prefeitura de São Félix. No local, é possível encontrar detalhes conservados, como os vitrais, que representam a produção agrícola local, e pinturas nacionalistas no teto. A fachada tem inspirações em detalhes do Palácio de Berlim e do Palácio do Catete, no Rio de Janeiro. Duas águias e o relógio despontam de forma majestosa na parte superior do prédio.

A praça Inácio Tosta foi palco do comício feito por Miguel Guanais, em 1831, para mobilizar os populares a invadir o Convento do Carmo, em Cachoeira. Agípio José de Souza, avõ do poeta Castro Alves, foi um dos que aderiram ao movimento, que iniciou o processo de tomada da invasão da Câmara de Cachoeira onde foi constituido o governo provisório. Na mesma praça, está o sobrado Arraial de São Félix, às margens do Paraguaçu, antiga residência de Castro Alves.

Pela ladeira de Santa Bárbara, São Félix revela uma vista encantadora da região, com a grande barragem de Pedra do Cavalo e os belos traços dos casarões de Cachoeira. Na subida, a casa onde viveu o artista xilógrafo alemão Karl Heinz Hansen, conhecido como Hansen Bahia, abriga exposições e permanece como um museu, onde é possível conhecer a maneira inovadora de como o artista integrava as obras de arte e suas ferramentas à arquitetura do ambiente.


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